
Introdução
Como outros primatas, o homo sapiens possui sua sociedade estratificada por uma ordem hierárquica. Por vezes esta ordem é clara e bem definida como no caso das organizações militares ou religiosas. Por outras ela é sutíl e difícil de se determinar como num grupo de amigos.
Seja em que grau for, é muito frequente haver um indivíduo que usufrui de maiores privilégios ou liberdade que os demais, seja por imposição, não oposição ou concessão. E em todos os casos, existem conjuntos de comportamentos que determinam como essas relações de poder são estabelecidas.
Na espécie humana, o conhecimento é tido como uma das principais fontes de poder e ascensão social. Os grandes investimentos feitos na educação das crianças, são mais que evidência de sua importância. Contudo, conhecimento é um recurso efêmero, de difícil observação, sendo, portanto, necessários demonstrar sua posse através de comportamentos de exibição.
Este texto pretende explorar brevemente como os comportamentos de exibição de conhecimentos são utilizados por humanos para estabelecer relações de dominância dentro de seu contexto social.
Dominância
Segundo Wilson (in McGuire & Wallace, 2000), dominância refere-se à habilidade de um membro de um grupo de se destacar sobre os outros ao adquirir acesso a recursos, tais quais comida, parceiros, locais de exibição e procriação, ou qualquer outro fator limitado que aumente o “fitness”.
Num grupo recém formado, é de se esperar que os comportamentos de disputa pelo acesso a recursos sejam acentuados. Em outras espécies de primatas os comportamentos de exibição são mais frequentes com estranhos do que com membros já conhecidos e quando tais comportamentos não são suficientes para estabelecer a dominância, esta é estabelecida geralmente através de lutas. Em humanos, embora luta seja menos frequente entre indivíduos, a história e a observação naive demonstram que nos primeiros encontros entre dois indivíduos, se existe expectativa de um contato mais prolongado, geralmente há grande exibição de posses, conhecimentos, tentativas de atração de atenção social e exibição da aparência física mais elaborada. E quando não se estabelece uma relação de dominância, em geral dá-se lugar a rivalidades e competitividade constante, podendo em raros eventos resultar em luta.
Uma vez estabelecida a relação de dominância e o grupo mantendo-se constante, as rivalidades e cessam. Mesmo em primatas não humanos, basta um comportamento de exibição do dominante para que o submisso detenha seu comportamento, recue e ceda espaço para o dominante. Esta relação estabelece um benefício mútuo, para o dominante a evidente economia de esforço e acesso aos recursos; ao submisso a vantagem é não se expor a riscos que poderiam-lhe ser fatais.
No caso dos humanos, apesar de seguirem um padrão muito semelhante. A relação de dominância nem sempre (e raramente o é) estabelecida por coerção. Muitas vezes a dominância é estabelecida por mérito do dominante em obter um determinado recurso (alimento, dinheiro, atenção social), ou por persuasão onde o dominante opera de forma a ser muito vantajoso submeter-se a ele. Contudo, os conflitos são reduzidos e basta uma exibição de “poder” do dominante para restringir o comportamento do submisso. A razão para isto é evidente no caso da dominância coerciva. Já na dominância não-coerciva, a não disputa do submisso não se deve a uma evitação da luta, mas sim à manutenção das vantagens em se associar ao dominante.
Um dominante que tenha maior capacidade de adquirir alimentos, afastar ameaças e obter atenção social, certamente oferece vantagem para os que o seguem. Há evidências (Cristol 1995 in ) de que um certo grau de dominância pode ser obtido pela associação a um indivíduo hierárquicamente superior. Uma das explicações possíveis para isto é que o indivíduo dominante reage de forma diferente a indivíduos que lhe são familiares, como numa espécie de “nepotismo natural”.
O benefício para o subortinado é ainda maior quando este pode adquirir repertórios comportamentais do indivíduo dominante que possibilitem aumentar seu “fitness”. Sendo o ser humano uma espécie com grandes competências halomiméticas e dotada de linguagem (uma ferramenta de manipulação de comportamentos) associar-se a indivíduos excepcionalmente competentes, pode ser o primeiro passo para ascender à dominância.
Conhecimento
Etológicamente pode-se definir o conhecimento como a capacidade para executar um determinado comportamento (aprendido), em um dado contexto e obter um resultado específico. Estas três dimensões são importantes, para discriminar conhecimentos de forma objetiva. Nem todos os indivíduos conseguem desempenhar um dado comportamento, mesmo os que conseguem nem todos são capazes de executa-los em todos os contextos em que este comportamento é relevante e mesmo que executado no contexto apropriado, as diferentes competências no desempenho do comportamento levam a resultados distintos. Podemos entender que qualquer variação seja no comportamento, no contexto onde é exibido ou no resultado obtido pelo mesmo, descrevem diferenças no conhecimento do indivíduo.
Torna-se assim evidente o valor adaptativo que o conhecimento possui para um indivíduo. Seu possuidor poderá possuir maior ou menor competência em adquirir outros recursos importantes para a sobrevivência e reprodução. E sendo uma competência aprendida, possibilita variação no fitness mesmo entre indivíduos geneticamente semelhantes, onde a variação não é significativamente relevante para a dominância.
Sendo o conhecimento um que garante uma certa performance, os grupos humanos investem grande tempo, empenho e recursos em manter e passar conhecimentos para as gerações seguintes. A educação é uma forma de garantir um maior fitness da prole, mesmo em desvantagem genética (como ocorre com pessoas portadoras de necessidades motoras ou sensoriais especiais).
Uma vez que o conhecimento pode ser aprendido e passado é muito vantajoso saber localizar as boas fontes de conhecimento e ter acesso a elas. O apreço social por indivíduos excepcionalmente competentes pode ter sido selecionado, talvez, do maior fitness produzido naqueles que de forma submissa se associavam a estes indivíduos. Ou pode ser um efeito secundário da proximidade que estes indivíduos excepcionalmente competentes possuem com os recursos importantes.
Contudo, o conhecimento é um recurso intangível. Com exceção da observação do desempenho do comportamento ao qual diz respeito, não há forma de discriminar entre dois indivíduos imóveis, qual dos dois possui um determinado conhecimento e outro não. Por esta razão, e para que o indivíduo possuidor de um conhecimento possa se beneficiar do ganho social que a posse deste conhecimento possa lhe proporcionar, este indivíduo tem que deliberadamente fazer exibições de que o possui.
Possíveis origens do comportamento de Exibição de conhecimento
Não existe qualquer estudo para a origem ou como se formam os comportamentos de exibição de conhecimentos, contudo, através de uma observação naive, podemos fazer especulações que abram campo para uma futura investigação mais detalhada.
Tenho a hipótese de que a exibição de conhecimentos é um sub-produto do desempenho do comportamento em si e do apreço social imediato a tal desempenho. É fácil observar crianças entre 2 e 8 anos exibirem o que são capazes de fazer para seus pais (Shaffer & Kipp 2006) e outros adultos sem qualquer outra vantagem associada ao desempenho do comportamento que não a atenção social. Tratando-se de uma criança e por isso dependente de cuidados de adultos, fica evidente a vantagem que é a posse de um repertório comportamental capaz de atraír atenção social, e portanto cuidados. Crianças mais exibicionistas podem ter tido mais chances de sobrevivência graças a maior atenção social que recebiam.
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Contextualização do conhecimento e da exibição de conhecimento
Nem todo o conhecimento é relevante a todo o tempo. Ser capaz de escalar uma parede é de pouca relevância para alguém cuja maior necessidade seja saber lidar com seu filho. Uma vez que o conhecimento envolve sempre um contexto (ou grupo de contextos), sua exibição e eventuais ganhos estão relacionados a eles ou a grupos de pessoas que tenham necessidades de desempenho em tais contextos.
Assim, é de se esperar que alguém que demonstre seus conhecimentos a respeito de como ficar mais bonito num contexto acadêmico seja menos apreciado do que se estivesse em um salão de estética.
Eventualmente, há exibições de conhecimentos fora do contexto específico. Num primeiro contato verbal, podemos supor que exibir de forma geral seus conhecimentos permite obter “feedback” do interlocutor a respeito de qual conhecimento ele mais valoriza, e de posse desta informação, as exibições se tornariam mais específicas na tentativa de obter melhor posição de estatuto.
O contexto também é importante para esclarecer que a dominância entre humanos, apesar de poder ser estável dentro de uma relação hierárquica inflexível. Quando se trata apenas do fator conhecimento ela é flexível segundo o contexto. O melhor aluno de matemática se destaca em seu grupo, sendo mais requisitado e elogiado diante de um exame final de álgebra, enquanto que o mesmo pode ser totalmente ignorado instantes depois em prol de outro que é melhor em história.
Disputas de exibição de conhecimento
A exibição de conhecimento pode assumir muitas formas. Das mais simples como os comportamentos exibicionistas de uma criança de 6 anos (amplamente conhecidos e estudados por Jean Piaget, Sigmund Freud e seus sucessores) ou uma breve palestra sobre um dado assunto, até as mais complexas como a construção de ferramentas que permitem exibir um dado conhecimento e relaciona-lo à sua fonte.
Gostaria de dedicar um pouco mais de atenção a estas ultimas. Fora a linguagem, a espécie humana desenvolveu inúmeras ferramentas que facilitam a comunicação entre indivíduos. Televisão, livros, jornais, internet, etc. Todas com a capacidade de influir no comportamento de terceiros a grandes distâncias no espaço e no tempo. Contudo, por alguma razão que escapa o escopo do presente texto, construiu-se o hábito de relacionar a informação apresentada com sua fonte. Tornando os meios de comunicação mais um instrumento para a exibição de conhecimentos.
A comunidade científica é notória neste sentido. Existe grande esforço em rastrear a fonte de informação e grande disputa entre seus membros pela posse de um dado conhecimento. Não é invulgar a publicação de artigos de outros autores, publicações incompletas ou mesmo com estudos feitos a pressa. Sinais que indicam que de algum modo, exibir a posse de uma dada informação é, em alguns casos, mais importante do que de fato tê-lo.
Considerando que a comunidade científica recebe seus recursos em função de sua produção, e uma das formas de produção mais importante é a exibição daquilo que descobrem ou inventam. É de se esperar que os comportamentos competitivos em termos de exibição de conhecimento sejam mais notórios entre cientistas do que entre atletas de alto nível (onde a competição é evidente e institucionalizada).
Conhecimento secreto. Exibição de posse de conhecimento sem exibi-lo.
Quanto mais escasso é um recurso, maior é seu valor. Se entendemos que conhecimento é um recurso, e que em dado contexto um dado conhecimento é necessário, mas somente um indivíduo o detém, enquanto ninguém mais o tiver este indivíduo se beneficiará de uma atenção social maior (Alves, 1996). Se este conhecimento é difundido, o fitness do grupo aumenta, mas o fitness relativo do indivíduo diminui, uma vez que ele perderá a posição de destaque.
Assim, por vezes, desenvolvem-se estratégias de exibição de posse de conhecimentos sem de fato demonstra-los. Mestres de artes marciais que são capazes de derrubar um homem com um toque mas que não mostram a pessoas fora de suas famílias, médicos que falam de remédios milagrosos sem mostrar a fórmula, pastelarias que fazem um doce com um sabor diferente e que ninguém consegue reproduzir, são apenas alguns exemplos de exibição de posse de conhecimento sem exibir o conhecimento, apenas o desempenho. Importante que todos eles atribuem ao conhecimento e não a simesmos o desempenho obtido, sempre referindo-se à técnica, a fórmula ou receita como causa do efeito produzido.
Evidentemente, isto se manifesta nas sociedades modernas nos direitos sobre patentes. Uma vez que é difícil de manter o segredo em uma sociedade competitiva onde o conhecimento é um recurso cobiçado. Estratégias foram desenvolvidas para que mesmo que o conhecimento seja amplamente difundido, apenas aqueles que têm direito de posse ou de criação do conhecimento possam se beneficiar do mesmo e de suas consequências sociais, garantindo assim seu estatuto.
Conclusão
Este pequeno ensaio foi apenas uma primeira exploração sobre o tema sem nenhuma base segura de que o fenômeno de fato ocorre. Como em toda a ciência, a observação casual é o primeiro passo para o questionamento do mundo que nos cerca, de suas relações causais e processos estáveis. E portanto, mesmo não tendo qualquer dado estatísticamente relevante para tirar conclusões definitivas (ou pelo menos, científicamente aceitáveis), entendo que os comportamentos de exibição de conhecimento, não só desempenham um grande papel nas dinâmicas de dominância entre humanos, como também suspeito que esteja presente e sutilmente manifesta em grande parte das interações sociais diárias. Isto poderia explicar, por exemplo, a relativa ausência de comportamentos agressivos entre humanos no que diz respeito à competição pela dominância, quando comparado a outros primatas.
BIBLIOGRAFIA
Alves, A.A. (1996). Brutality and Benevolence: Human Ethology, Culture, and Birth of Mexico. USA, Westport: Greenwood Press.
Goodenough, J., McGuire, B., Wallace, R.A. (2001) Perspectives on Animal Behavior. New York: John Wiley & Sons
Shaffer, D.R., Kipp, K. (2006). Developmental Psychology: Childhood and Adolescence. 7th ed. New York: Wadsworth Publishing.